Arquivo do mês: abril 2010

De pano.

Hoje eu olhei a caixa preta com bolinhas brancas, o coelhinho de pelúcia, o vinho guardado para uma ocasião especial e a rosa verde com laranja que ganhei, que me fez esquecer a rosa que deixei na casa antiga. Ela também era laranja e verde, mas essa que ganhei recentemente é maior e o amor e a alegria que vieram juntos com ela também. Então me lembrei da bonequinha de pano, sem vida e sem cor, que tentava agradar a todas as pessoas e que não tinha vontade própria. Que era levada de lá para cá, ficava jogada num canto e sozinha. O seu sorriso era forçado pela costura que veio de fábrica. Só não era mais forçado que os sorrisos amarelados das pessoas ao seu redor. Mas um dia ela se esqueceu que era de pano e sem medo de se rasgar no caminho, ela tirou as costuras que definiam a forma moldada por alguém e criou a sua própria forma. Hoje os seus lábios seguem o contorno do que é sentido e não tem mais ‘cordas’ que a prendem e a controlem. Hoje ela anda com as próprias pernas, é livre e até vive, mas ainda continua boneca, continua de pano.

Rasga. Costura. Suja. Lava.


Priiiiiiiiiiiiiiiiiim.

Na verdade eu tinha vontade de gritar e colocar para fora todo o sentimento da eminente perda. Mas eu tentava, eu juro que eu tentava com todas  as minhas forças respirar, num ritmo não tão acelerado e tentar te convencer que não era bem assim, que não era para ir embora e fingir que nunca aconteceu. Pela primeira vez eu tinha medo de perder. A minha vontade era de sair correndo dali e gritar para todo mundo ouvir que eu não consigo viver sem você. Pode até ser exagero. Então eu tenho mesmo um amor exagerado, obcecado. Eu queria estancar o meu coração. As idéias estavam confusas na minha mente, eu não conseguia entender, ou melhor: aceitar tudo isso. Eu abri mão de tudo por você, para viver esse amor, eu me entreguei por completo, de uma maneira que jamais fiz antes. Eu mudei a minha cor de cabelo. Você não gostava de vermelho. As minhas roupas deixaram de ser tão curtas e detalhadas. Minhas unhas se tornaram pequenas e claramente rosas. A maquiagem era tom sobre tom, preto no branco. Mas nesse caso, nada de preto. E nisso tudo, eu também me perdi de mim. Eu me olhava no espelho e não reconhecia. Nada era familiar. A mudança era gritante. Ops, já tinha esquecido: nada de gritos. Ainda bem que o despertador marcava 06h45min da manhã. Acordei. Era só um pesadelo.


Mais uma dose, por favor.

Eu estava procurando uma palavra (duas ou três) que definisse, que coubesse perfeitamente bem, que encaixasse, sobrepusesse, colasse. Que soasse no mesmo tom e que ainda acompanhasse o mesmo ritmo que a gente. Mas o problema é que não gostamos dos padrões, do pré-estabelecido, do ‘caiu perfeito como uma luva’. Então por mais que procurasse não iria encontrar, por que nada é suficientemente redondo, nem tão quadrado, nem tão bom (ou ruim) que servisse para nós. Seria um desperdício limitar a gente com uma palavra, duas, três (ou não). Diferentes? Talvez. Nada é ‘tão’ do nosso jeito, nada combina ‘tão’ bem. Por isso é que a gente inventa mesmo. Nós não gostamos de parecer, de querer ser igual ou diferente a alguém, algo. O que importa é querer ser o que a gente quer ser e pronto. E quem se importa se é só a gente? Nós não ligamos em pertencer à maioria, nem as minorias. Nós gostamos das pessoas que gostam da gente e de gente. E tem até um ‘bocado’ por aí. E até das que não gostam, por que será, hein? (E tinha que fazer sentido?). E o mais importante são as pessoas e nelas os seus sentimentos, (não é, amiga?). Talvez seja por isso que a única coisa que tentamos preservar de verdade sejam elas (pessoas e sentimentos). Já nossa maneira de sentir vem acompanhada por ‘grande’, ‘maior’, ‘melhor’ e termina sempre com ‘ão’, ‘ona’. Seríamos intensas? Talvez novamente. Nós gostamos também de Zoação, Zoeira, Zoada. Música alta. Som. Barulho. É, amiga, vamos para um lugar que possamos gritar e tomar mais uma dose de exagero.


Organizando a casa.

Definitivamente, está precisando ser reformada.

Vou quebrar aquela parede, integrar os espaços.

Um pouquinho para cima, pronto. Ficou bom. Vai ficar apenas este. Foi um presente de mamãe. Vou tirar todos os outros quadros famosos e antigos da sala e trocá-los por arte nova, desconhecida e barata.

Abrir as janelas pela manhã para o sol entrar (e ‘alimentar’ o buquê de rosas vermelhas que ganhei. Ele está num vaso com um pouco de água, na tentativa de sobreviver um pouco mais que os outros).

Afastar os móveis, nada ficará no lugar de antes. Nem a mesa baixa de madeira no centro da sala, com as duas poltronas e o sofá ao redor. Eu gostava muito desse ‘layout’ e só pensava nele, talvez por influência dos meus pais, não queria inovar.

Vou tirar um pouco do pó também.

Mexer nas coisas velhas, guardadas em cima do ‘Roupeiro’.

Separar o que serve do que não serve e cada ‘bugiganga’ sobrevivente terá um novo lugar, uma nova utilidade, nem que seja apenas enfeitar.

Encher a sala de porta-retratos com as fotos da viagem do outono.

Pintar a parede de modo que contraste com os meus pufes verde-limão.

Tirar a TV dali. Ficou estranha.

Colocar abajures nos quartos e dormir a meia luz.

Construir um ‘closet’ para guardar os meus sapatos.

Livros na mesinha de cabeceira e histórias antes de dormir.

Uma cama macia e suficientemente espaçosa para eu e meus sonhos.

Uma mesa grande para os ‘almoços em família’.

Um armário que comporte a minha louça chinesa.

Vou usar os talheres novos, as taças de cristal.

Um banheiro com cerâmicas azuis e todo o resto branco.

Uma parede de vidro que separe o que pode ser molhado do que não pode ser mudado.

Uma ducha rápida para ganhar o dia, uma banheira ‘calma’ para não perder a noite.

Lá fora, aquele alpendre das redes e samambaias.

O verde da grama colorida com uma caixa de giz de flores: girassóis, bromélias e orquídeas

Então é isso. Estou precisando de uma casa que combine mais comigo.

Ah, mais para direita, agora um pouco para esquerda. Pronto, Perfeito.

Por: Hélio Duarte e Raquel Carlos.


Um pouco de forma.

O ponto que vira risco, que vira círculo, que vira triângulo.

O triângulo que vira quadrado, que vira retângulo, que vira trapézio…

Pelo menos está criando forma.

São planas?

Não. Pleno.

Espaciais?

Especial.

Significa muito mais que uma troca de vogais.

De Gênero, plural, singular.

Soa diferente. Faz o sentido mudar.

E o importante é que apesar de estar criando um pouco de forma, não deixou de ser abstrato.

Pois quanto mais cria forma, mais vira sentimento e não coisa.

E mesmo não conhecendo, entendendo e não sabendo discernir direito, eu consegui sentir.

E por sentir, eu quis entender, discernir, (te) conhecer.

Então hoje você já tem um nome, um trabalho, um rosto, uma voz.

Amanhã, quem sabe, terá também cheiro, textura.


Condução.

Passa todos os dias de 12h00min, às vezes de 12h05min, já chegou até a passar de 12h20min. Lá a gente tem que segurar forte para não cair e o motorista tem que usar de maestria para não passar direto da parada, ver o homem que vem correndo na rua, receber o dinheiro, passar troco, apertar o botão para liberar a catraca, dirigir, parar, apertar o botão para a porta de traz abrir, esperar as pessoas descerem, não derrubá-las e ainda não bater na moto que insiste em ultrapassá-lo pelo lado direito.

Lá tem a mulher da Farmácia. A menina que trabalha como Professora numa escola pública. Tem o jovem que vai para a escola (ele está cursando pela terceira vez a oitava série ou o nono ano). Tem o ‘cara’ da verdura.  O camelô.  “o jogador de futebol”. Tem também o desempregado a procura de emprego. A “modelo”. Os que se acham. Os humoristas. Os mal-educados. As fofoqueiras. Os que não gostam de desodorantes. Os cantores. Os que ‘um dia vão vencer na vida’. Eu e muita ‘gente fina’.


Nesta segunda-feira, como todos os dias, não tinha cadeira vaga. Então eu procurei ficar em pé em frente à menina que estuda na escola técnica (ah, lá também tem a ‘futura técnica’), pois ela é sempre a primeira a descer.

Mas nesse dia, justamente porque eu estava com quatro livros pesados que eu peguei na biblioteca municipal, para estudar para o tal do concurso que vai mudar a minha vida, eu descobri que ela tinha mudado de casa. Parece que para uma melhor e num bairro não tão periférico. Mas eu não estava ligando. Droga, naquele dia a minha estratégia de conseguir um assento não tinha dado certo e como sempre, ninguém se ofereceu para segurar as minhas coisas. E acredite! Desse jeito, a força tem que ser bem maior para não cair.

Mas não tem nada não.

Quem sabe amanhã a mulher da Farmácia tenha conseguido um emprego melhor e mais próximo de casa, que dê para ir a pé. Aí eu poderia sentar no lugar dela.

Quem sabe a menina ‘quase técnica’ se mude novamente, dessa vez para um lugar mais próximo ou se forme!

Quem sabe depois de alguns dias eu descubra quem dentre os frenquentadores assíduos agora desce primeiro.

Quem sabe eu economize umas moedas para ir de táxi ou até consiga comprar, enfim, a minha moto sem marchas.

Quem sabe?!

No ônibus esperança é o que não falta.


Nosso Mundo.

Nós criamos um mundo colorido, cheio de balões, sorrisos, amor.

E lá nós decidimos viver e da melhor forma.

Decidimos que não iríamos nos importar com nada e que iríamos ser EXAGERADAMENTE feliz.

Decidimos que iríamos comemorar o nosso ‘desaniversário’ e que iríamos correr na chuva em direção ao mar.

Decidimos criar a nossa própria linguagem, ou melhor, formas diferentes de falar sobre amizade.

Decidimos celebrar a diferença. Construir sonhos.

Mas nem todos conseguem enxergá-lo!

E como dizia Clarice Lispector: “Ela acreditava em anjos, e porque acreditava, eles existiam!”

E nós acreditamos nele e por isso ele existe.

Aliás, é mais do que isso, nós o sentimos e a pulsação é forte, cheia de vida e acompanha o ritmo das emoções que nós decidimos sentir.

Lá decidimos ‘viver tudo que há para viver’ e nos afastar de ‘tudo que não traz felicidade’.

Foi a nossa melhor escolha.