Arquivo da categoria: Aquarela.

Amigas de infância

De todas as meninas da rua, ela era a que mais parecia comigo e a que eu mais gostava. Não sei explicar tanto gostar e tamanha afinidade, mas arrisco que era por causa dos nossos sonhos sem limites e sentido, que a gente costumava colorir, a tarde inteira. Ela foi a terceira pessoa que foi embora desde que eu cheguei. Mas meu coração doeu mais com a sua partida. Ela foi embora de um jeito tão cruel, sabe? Eu chorei várias noites me perguntando por que ela passou a ter apenas olhos tristes e silêncio. Eu passei horas e horas imaginando o que poderia ter acontecido com ela, imaginando que coisa é essa tão forte capaz de calar uma voz, de apagar sorrisos e de fazer ela deixar de ser e se tornar foi. Explicações? Procurei durante muito tempo, de todas as formas. Inventei algumas. Engoli outras. Mas quer saber? Eu não deveria ter deixado ela ir embora assim, não sem lutar. Não deveria ter deixado ela se tornar tão oca, tão sem voz, nem vez. Eu deveria ter gritado ou ter feito alguma coisa que fosse capaz de impedi-la de se perder, de se acomodar dentro de si mesma e se sentir confortável a ponto de ficar lá. Eu deveria ter tentado, ter feito alguma coisa, por mais ridículo que fosse, capaz de chamar a sua atenção e de trazer a sua memória motivos para permanecer, para voltar. Mas eu preferi fugir, me tornar alheia, indiferente, estranha a isso, a ela, a nós. Preferi fingir que não era comigo, que não me dizia respeito, apesar de eu carregar essa ausência comigo todo dia, o tempo todo.  Na verdade, eu sempre quis me aproximar de novo. Sempre quis estender minhas mãos e tentar trazê-la de volta para a vida, para mim, para os nossos papéis coloridos. Sempre quis puxá-la de volta para o lado de fora, mas eu sempre fui fraca demais, passiva demais. Fui, confesso. Mas até ontem. Hoje eu vou lá e sem desviar, vou olhá-la com olhos de quem está procurando algo, quem sabe algum resquício de vida, de amizade. Vou olhá-la com olhos grandes, largos, aconchegantes. Com o olhar de antes. Talvez ela retribua. Talvez ela se ache. Talvez ela me ache.  Talvez ainda tenha jeito.


Você poderá gostar de: #Porta-coisa? #Oficina sem nome. #Uma borboleta incomoda muita gente.

Imagem tirada daqui.


 

Havia um tempo em que eu queria mostrar

quem eu sou para algumas pessoas. Desisti!

…não sei se de mostrar-me ou dessas pessoas.

Percebi que quem não consegue enxergar-me de verdade,

além-pele, é porque está longe de mim.

O tanto suficiente para atrapalhar a visão.

 

Você poderá gostar de: #Como assim tudo ‘tão razão’? #Minhas Amigas. #O final da minha noite


Roupa Suja.

Eu até achava que combinava. Fui formando vários modelos, fazendo um remendozinho aqui e acolá, mudando o sapato, às vezes a bolsa e foi dando certo. Fomos acompanhando as estações e cheguei até a achar que não ia ter moda que derrubasse. Afinal, cada uma faz a sua. Até surgir uns fiapinhos e aparecerem umas manchas não sei de onde, que começaram a desfiar tudo e a sujar a estampa mais bonita: a amizade. Então tudo se tornou tão descartável, eu tão pano de chão, quando percebi que o bordado que fiz durante alguns anos não serviu de nada, já não tinha valor. LIQUIDAÇÃO TOTAL.

Eu ainda esbocei umas linhas para te contar sobre o gaguejar do outro lado da linha, sobre o ‘mas’ que você não me deixou concluir. Sobre com quem eu falei nos cinco minutos de intervalo entre uma ligação e outra. Sobre os planos, as estripulias, os malabares, os rostos pintados e o mundo que eu movi para te ajudar. Sobre a minha espera e também sobre coisas que não se faz, que você não deveria ter feito. Sobre você não acreditar, não confiar e não saber o que realmente aconteceu. Sobre minhas tentativas. Sobre  você jogar coisas pelas janelas que não voltam mais. Quer saber? Desisti. Essas coisas não te interessam. Caso contrário, teria atendido o celular, tenho certeza.

Agora tanto faz você fazer birra, cara de choro ou voz de criança que não vai adiantar. Você querendo ou não, as coisas nem sempre foram ou são como você quer, como você acha, como você interpretou. O mundo não é lilás e não se resume só a realidade que você criou. As outras pessoas também têm os seus abanhados para fazer, umas linhas para enviesar, outras para organizar. Você precisaria entender que você não pode fazer o que quiser com os outros, tipo brincar de destruir novelos de lã. Embaixo dos panos estampados acontecem muitas coisas. E muitas vezes as pessoas não sabem, as pessoas não vêem. Principalmente quando não se quer, quando não sobram espaços para mais nada, para mais ninguém. Muitas pessoas estão tão costuradas ao seu próprio eu, presas em suas próprias concepções, verdades, realidades e julgamentos que não conseguem se pendurar em mais nada, quanto mais se aventurar em outros varais. Sabe? Às vezes é preciso se misturar, atravessar a fibra do outro e entender suas intenções, seus sentimentos. Mas é mais conveniente, e mesquinho também, se deter só a carcaça. Minha fibra estava tão macia, tinha usado amaciante da última vez.

Às vezes os tecidos se desprendem dos varais, caem no chão e se sujam. Às vezes é de tanto usar também. Só sei que as manchas que cobrem a beleza dos tecidos precisam ser tiradas. Quando se quer usar novamente é preciso lavar a roupa suja de novo, esfregar, esfregar até não sobrar mais nada de sujeira. Mas quer saber? Não gosto de beira de pia, muito menos de bacia e o sabão em pó acabou. Será que pó de pilimpimpim resolve? Tenho pra mim que não.

Você poderá gostar de: #Coletâne@. # INcolor. # Mais que um mero poema.


As oito?

Vamos caminhar devagar, sem pressa e sem promessas. Vamos viver na medida certa, sem exageros, sem desenhos ridículos em guardanapos e sem rosas de papel. Vamos sorrir contido, de canto de boca, no tom, disfarçado. Vamos viver mesquinho, até virar costume. Eu gosto muito das palavras, as aprecio bastante, costumo até vibrar com um bocado delas, espalhadas em frases e também quando recitadas. Mas, convenhamos que para algumas coisas, melhor do que ler, ouvir, é sentir, é ter, é tocar, é fazer. Como o amor que não é algo para ser discutido, pensado, analisado, entendido, explicado. É algo para ser doado, vivido, sentido, exagerado, gargalhado. É, nisso, eu sempre precisei muito mais que palavras. Sabe porque? Por que as soltamos ao vento e as fazemos andar, correr e dançar, mas no meio do caminho elas dão umas piruetas, elas se perdem, se confundem e mudam os passos. Elas são perigosas. Não acredita? Pois leia de novo o texto, e coloque o não antes do vamos . Na verdade era isso que eu queria dizer.

Eu te amo e chega de palavras por hoje. Passa aqui que eu vou te mostrar. As oito?

Você poderá gostar de: #Mais uma dose, por favor. # Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim # De pano.


Menina

Aumente o som, deixa a música rolar que a menina já está balançando a pontinha do dedo, no mesmo ritmo, sentindo a vibração, é som do bom, sabe? Daqueles que dá vontade de dançar sem parar. Hoje ela decidiu usar uma blusa canoa, surfar com a situação, dá uma de turista e trabalhar na Praia. Deixa a menina conquistar novas cores, passear entre as aquarelas que existem além das paredes do seu quarto rosa e conquistar seu mundo, mudar de mundo e conquistar um novo mundo. Desproporcionais? Que sejam. Ela já aprendeu há muito tempo, sobre o tempo, sobre ‘a dureza da vida com as bundas moles’. Aprendeu a não se importar. Ela já é de maior, sabe sobre os amores e os computadores, deixa! O que ela quer é fazer gargalhar, dela, da ponta do seu nariz e das ambiguidades. Por falar nisso você gosta de vermelho?  Ela só quer se perder de vista e se balançar um pouquinho. Ela já descobriu como a coisa funciona: é só não pensar, deixar se levar, entrar no clima, contagiar. Deixa vai! É só hoje.

Você poderá gostar de: #Condução. # Um pouco de forma. # Organizando a casa.


Contropefo

Eu estava tentando deixar entendível, decifrável, interpretável, compreensível, perceptível, inteligível, explicando demais, dando exemplos demais. Enquanto fazia isso, eu estava um tanto querendo achar graça, mas me controlei, porque me lembrei do amarelado que o café deixa nos dentes e esse tom de amarelo não tem graça. Tentei. Tentei. Tentei. Fui até redundante. Repetitiva. Mas não adiantou muito explicar. – Como pode alguém ser tão, tão, tão… dizia ele até eu o interromper dizendo: – É. Tão mesmo. Tão. Muito. Demais. Talvez ele não tivesse prestando muita atenção ou talvez meu mundo fosse mesmo complexo demais. Segundo ele: Eu preciso demais, peço demais, além do que as pessoas possam dar. E como se não bastasse, às vezes, eu sou cruel com isso, porque muitas vezes o melhor de alguém pode não ser o melhor para mim. Eu costumo chamar isso de amor próprio, de seletividade, de si gostar, de não aceitar qualquer bugiganga enfeitadinha que me oferecem. E você? Eu dizia: – Calma, você vai se acostumar. Mas eram novidades demais para alguém que tinha as mesmas manias que seu colega, que meu colega e que o cara da bodega da esquina. É liso. Não estampa nada. É muito contropefo. Entendeu? Não? Espera que eu vou te explicar… hahahaha, desculpa, saiu.

Você poderá gostar de: #Combinação Perfeita. # Qualquer maneira. # Nosso mundo.


Das perdas.

Sempre me disseram que: “um dia a gente perde e um dia a gente ganha”. Percebi que para algumas pessoas é: ‘um dia a gente perde e muitos dias a gente ganha’ e para outras pessoas: vice-versa*. Advinha em que lado me enquadrei? Ou melhor, em que lado a vida me enquadrou. O verbo é PERDER. Está no infinitivo? ok. Sei soletrar: P-e-r-d-e-r. ‘Silabar’: Per-der. Colorir: Perder. Mas nunca aprendi direito a conjugar: Eu perco, perdo…. Algumas vezes tentei substituí-lo pelo verbo ficar. Pela pergunta: Você me deixa ficar? Outras vezes por: Fique! Aliás: FIQUE!!!! Perder faz o mundo se avessar, mostrar a costura, os fiapos, o desbotado, ‘o que não deve ser mostrado’. E tem dias que a gente não está muito a fim de criar, de ‘modelar’, nem de ‘estilizar’. E nesses dias – não tão criativos, modistas e nem estilizados – depois de virar na cama a noite toda, não estando toda (completa) e de pensar que é preciso dormir, mas que fechar os olhos apenas não é suficiente e após levantar novamente (pela é… perdi a conta, só sei que é sempre depois do: ‘ levantar de novo’ e ‘levantar outra vez’) a gente percebe que isso não faz bem para a pele e que pó de arroz  também não adianta muito – ela está seca e áspera, e que a noite mal dormida também não faz bem para os olhos, para o corpo e para a alma. Por que, acima de tudo, perder dói. Daí já é verbo demais em uma frase – perder e doer. Perder tira presença, sentimentos e também coisas. Perder também traz lembranças. Lembra ausência; Falta; Não ter; Não poder. Lembra quase, mas também pra sempre. Lembra poderia ter sido. Lembra metade, que muitas vezes soa vazio. Lembra também novidades sem poder contar, sem poder ligar, sem poder mandar e-mail. Lembra tantas coisas, mas ‘outras coisas’, que de tão boas parecem presença e sentimentos juntos. Então se tiver que ser (que perder), que seja aos poucos, seja cotidiano, seja costume, seja adaptação. Que os muitos ‘perder’ que a vida me deu, (deu para mim e para as ‘outras pessoas’) mesmo que estejam juntos, somados ou multiplicados nunca consigam se igualar ao ganhar que faz o mundo ‘desavessado’, colorido, espelhado. Ou melhor, um mundo que espelha, que reflete, reflete singulareS iguais a um plural.

Também existem mundos desavessados no lado vice-versa.

Com pluralidade de singulareS.

É esforço, é suor. É lutar mais que algumas pessoas.

Mas é possível.

A vida dá essa chance.

Coloque o ‘S’ no final.

Olhe para os lados.

Tá vendo?

Quer mais o quê?

 

 

 


*Um dia a gente ganha e muitos dias a gente perde.


 

Você poderá gostar de: # Turbilhão de sensações. # Nem ‘PIF’. Nem ‘POF’. ‘PIF POF’. # Passagem do ano.